As velas ardem até o fim

por valeriamidena em fevereiro 4, 2011

Sándor Márai :: ilustração de Ignácio Schiefelbein

“Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer…

Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente.

Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice.”

Acho tocante esse pequeno trecho do livro ‘As velas ardem até ao fim’, de Sandór Márai (Ed. Dom Quixote, Portugal, 2001), pela sensibilidade com que relaciona a perda dos prazeres da alma ao envelhecimento e à morte. Húngaro, Márai autoexilou-se em 1948, inconformado com o regime comunista de seu país, tendo morado na Suíça, na Itália e na França até fixar residência em San Diego (onde, aos 89 anos de idade, veio a cometer o suicídio). Seus escritos retratam com frequência a decadência da burguesia em seu país, sempre com um olhar voltado para as grandes questões emocionais do homem: amor, paixão, vida, dor, decadência e morte.

São ainda leituras muito prazerosas ‘De verdade’, ‘As Brasas’, ‘Divórcio em Buda’ e ‘Libertação’, todos publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras.

5 comments

Adorei o texto, delicado e forte, dá pra ser ?
Quero crer que ao se apagar, esta vela transforma – se numa nova forma de luz e assim ilumina novos horizontes.

by Flavia Goldenberg on 3-14-2011 at 23:41:48. Responder #

Que as nossas velas permaneçam acesas em diversas dimensões. Belo texto, narrado com a sensibilidade de uma verdadeira artista, mas enquanto existirem sonhos a velhice sobreviverá ao tempo.

by Cristina Ruffo on 3-16-2011 at 17:14:21. Responder #

Sándor Márai e não precisamos falar mais nada… Bela escolha! Dele, mais dois livros que valem cada página: ‘O legado de Eszter’ e ‘Rebeldes’.

by Paulo Pereira on 3-17-2011 at 22:47:33. Responder #

aquilo que chega a mim como verdade, toca e transforma.
obrigadíssima, minha amiga. com muita e p r o f u n d a admiração. l o v e y o u

by cristiane araújo on 8-26-2011 at 23:51:21. Responder #

…nossa…impactante, triste, verdadeiro…belo!! Há que haver ainda e sempre muita luz – a nós todos!!

by Patricia Vieira Spada on 1-24-2012 at 17:39:16. Responder #

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