A alma imoral

por valeriamidena em abril 20, 2011

Clarice Niskier :: A alma imoral

“Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Esse olhar é o da alma.”

‘A alma imoral’ é uma das mais belas e impactantes peças de teatro a que assisti nos últimos anos – uma adaptação teatral elaborada e interpretada (de forma elegante e sensível) por Clarice Niskier, a partir do livro homônimo do rabino Nilton Bonder. Partindo do conceito de que, por sua própria essência, a alma humana é transgressora, o texto confunde, desconstrói e reconstrói visões milenares sobre o que sejam corpo e alma, certo e errado, obediência e desobediência, traidor e traído.

Bonder coloca a tomada de consciência do ser humano sobre sua própria existência como a origem do corpo moral, que passa a ser o guardião dos costumes, da conformidade e da adaptação – o mantenedor das tradições do passado, que por meio delas colabora para a reprodução da espécie. Já a alma – que carrega em si a rebeldia e a capacidade da mutação – é aquela que possibilita pensamentos e condutas que rompem com essa moral estabelecida, colaborando assim para evolução dessa espécie. Para ele, é a tensão gerada por essas duas naturezas conflitantes e interdependentes, e o diálogo que se constrói entre essas forças – a conservadora e a transgressora – que permite ao homem transcender a si mesmo.

“Não há tradição sem traição. E não há traição sem tradição.” Basta olhar para a história da humanidade para constatarmos, nas mais diversas formas da expressão humana, a beleza e a verdade dessa afirmação: de Michelangelo a Picasso, de Beethoven a Stockhausen, de Isadora Duncan a Pina Bausch, de Brunelleschi a Frank Gehry, de Shakespeare a Guimarães Rosa… a evolução humana depende fundamentalmente de atos que, pela ótica dos costumes e da tradição, são vistos como traições. Mas verdadeira traição seria não dar voz a nossas almas transgressoras, pois são elas que nos permitem o prazer e a evolução em nossa existência.

Sobre a peça: www.almaimoral.com
‘A alma imoral’, Nilton Bonder, 1998, Ed. Rocco.

2 comments

Realmente o livro é muito bom – estou na metade dele. E o seu texto é lindo. O difícil é, na batalha do dia-a-dia, compreender quando a alma nos chama. Um beijo e boa páscoa!

by Fernanda Camano on 4-24-2011 at 13:22:48. Responder #

Fernanda, se está lendo o livro, não perca a peça. A adaptação que Clarice Niskier fez para a linguagem teatral é irretocável – linda, inteligente, delicada… Um bálsamo para os olhos, os ouvidos e a alma! Obrigada pelo carinho, um beijo grande para você também.

by valeriamidena on 4-25-2011 at 22:28:28. Responder #

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