Um não-guia de estilo

por valeriamidena em janeiro 26, 2012

La Parisienne :: Inès de la Fressange et Sophie Gachet :: Ed. Flammarion :: 2010

Desde seu lançamento, em 2010, muito já se falou sobre o livro de Inès de la Fressange e Sophie Gachet. De fato, ele é ótimo: o texto tem humor, graça e vivacidade; as ilustrações (feitas pela própria Inès) trazem os mesmos atributos, com certa delicadeza e uma quase autoironia; as fotos (de autoria de Sophie e Inès) revelam um olhar particular e despretensioso sobre objetos e lugares;
e as informações… ora, quem não gostaria de ter uma agenda com endereços dos melhores e menos óbvios produtos e serviços de Paris?

A um olhar mais atento, porém, o livro mostra ser muito mais do que um ‘guia de estilo’ – designação que não existe na publicação original (simplesmente “La Parisienne”), mas foi agregada ao título em sua tradução para o inglês (“Parisian chic: a style guide by Inès de la Fressange”), e adotada também na versão em português (“A Parisiense: o guia de estilo de Inès de la Fressange”).

A designação ‘guia’ traz implícita a ideia de uma obra com regras e instruções que, seguidas, são capazes de garantir o sucesso de determinado empreendimento ou atitude. Mas a noção de que existe uma fórmula, uma receita para ser ‘chic’ (!) ou para ter ‘estilo’ é diametralmente oposta ao pensamento que percorre o livro – e isso fica claro logo em seu início: “É preciso saber tomar liberdades com as afirmações categóricas… Algumas regras foram feitas para serem quebradas… Você gosta de vestido laranja com sapatos amarelos? Vá em frente, vai chegar um dia que vão querer copiá-la!”

Entendo que o grande mérito do livro esteja, na verdade, em estimular a reflexão e o entendimento sobre si mesmo, e em valorizar a expressão individual – seja no modo de vestir, de morar ou de consumir. Ler algo como: “(A parisiense) não faz o gênero de torrar todo seu salário num must-have. Primeiro porque não tem dinheiro, e depois porque considera que tem tanto talento quanto um estilista: por que pagar caro por uma produção que ela mesma poderia ter imaginado?” é muito mais instrutivo do que saber qual a visão particular de Inès a respeito de como combinar sandálias e vestidos.

Ou ainda: “Por que pensar que é absolutamente necessário pagar milhões para ter arte em casa? Enquadre os desenhos preferidos dos seus filhos… e para qualquer pedaço de papel a que você queira dar importância, os quadros de acrílico magnéticos transformarão até um recado rabiscado num guardanapo…”
É relevante saber de onde são os quadros de acrílico magnéticos? Não, relevante é a noção de que cada um decide aquilo que quer emoldurar – aquilo que, para si, tem valor.

Ter estilo é conhecer a si mesmo e ter clareza de suas preferências; saber o que lhe proporciona prazer, o que lhe agrada, o que coexiste em harmonia com seu jeito de se mover, de pensar, de agir, de viver. E fazer de cada escolha, portanto, uma expressão da própria individualidade. Ter estilo é ser consciente de ser único – e desfrutar dessa condição com alegria e prazer.


Para saber mais:
‘A parisiense, o guia de estilo de Inès de la Fressange com Sophie Gachet’,
Ed. Intrínseca, 2011

3 comments

Adoramos…vamos lê-lo!
Beijos nossos.

by NÃO SOMOS APENAS ROSTINHOS BONITOS on 3-1-2012 at 19:03:52. Responder #

A liberdade de ser quem somos e a maturidade de apreciar o que se tem.
Parabéns, Valéria, pela delicada forma de nos chamar à realidade.
Beijos,
Alê

by Alessandra on 3-23-2012 at 12:12:12. Responder #

Oi, Alê, obrigada por suas palavras. “A liberdade de ser quem somos” é efetivamente um dos maiores prazeres de que podemos desfrutar na vida!
Continue aparecendo por aqui – e contribuindo com comentários e críticas, sempre muito benvindos.
Bj gde, Valéria

by valeriamidena on 3-23-2012 at 14:08:50. Responder #

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