Intolerância

por valeriamidena em abril 21, 2012

'Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages' :: D. W. Griffith :: 1916

‘Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages’ :: D. W. Griffith :: 1916

 

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages’ (‘Intolerância’, em português) foi lançado em 1916 por D. W. Griffith. Com custo de produção sem precedentes à época, o filme, ainda mudo, tem cerca de 4 horas de duração e, por meio da dramatização de um poema de Walt Whitman, interliga quatro episódios da história da humanidade profundamente marcados pela intolerância: a guerra da Babilônia, na Mesopotâmia (cerca de 6 séculos a.C.); a crucificação de Cristo em 33, na Judéia; a noite de São Bartolomeu, na França do século XVI; e o amor de dois jovens durante uma greve de trabalhadores, nos Estados Unidos da era moderna.

A intransigência com relação a opiniões, atitudes, crenças ou modos de ser que difiram dos nossos próprios, e a decorrente repressão, por meio da coação ou da força, das idéias que desaprovamos, têm sido a origem de enorme sofrimento e incontáveis barbáries ao longo da história. A incapacidade de aceitar e de conviver com a diferença é talvez um dos maiores males que podemos causar a nós mesmos.

Poucos dias atrás, o julgamento sobre a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos foi tema de grande repercussão junto à opinião pública brasileira. Em meio a artigos, reportagens e manifestações, uma matéria feita por um jornal de grande circulação chamou minha atenção. Na matéria, duas mulheres eram entrevistadas: a primeira contava do sofrimento que tinha vivido por ter sido obrigada a gestar por 9 meses um feto que sabia anencéfalo – mesmo tendo recorrido a várias instâncias judiciais, não obteve autorização para um aborto a tempo de fazê-lo de maneira segura. Dizia ter passado 9 meses preparando-se para o enterro de um filho que nem chegou a conhecer, e que a experiência fora traumática a ponto de fazê-la desistir de uma nova gravidez.

A segunda entrevista era com uma mulher que também havia tido uma gravidez de anencéfalo, porém, diferentemente da primeira, tinha optado por levar a gravidez até o final, convicta de que aquela era a conduta correta. Mãe já de um menino de 3 anos, tinha enterrado há pouco seu natimorto, e esperava apenas recuperar-se fisicamente para tentar uma nova gravidez.

O que me chamou a atenção nas entrevistas não foi constatar que, frente a uma mesma situação, duas pessoas (de condições sócio-econômicas e culturais muito próximas) tinham posturas tão distintas – mas o fato de que, enquanto a primeira defendia o direito à escolha, a segunda condenava veementemente quem quisesse fazer uma escolha diferente da dela. Pior, defendia que não houvesse a possibilidade da escolha – afinal, sendo sua conduta “obviamente” a correta, por que permitir que alguém tivesse outra, “errada”?

Na origem da negação da legitimidade de diferentes opiniões, atitudes, crenças ou modos de ser estão a vaidade e a arrogância. Julgar que o outro seja menos competente para fazer escolhas e traçar caminhos, acreditar que a nossa verdade deva ser também a verdade do outro mostra o quanto ainda devemos evoluir como seres e como cidadãos. Milhares de anos depois, após tanto conhecimento, tantas descobertas e tecnologias, ainda permitimos que a intolerância escravize a liberdade de escolha a que todos temos direito.

Para saber mais: http://www.youtube.com/watch?v=GF7ho_-1aWo

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