Simplicidade e estilo

por valeriamidena em maio 20, 2013

Elsa Peretti :: photo by Duane Michals :: Vogue, 1974

Elsa Peretti :: photo by Duane Michals :: Vogue, 1974

Elsa Peretti talvez seja a maior responsável pela imagem contemporânea da Tiffany & Co.. Desde sua primeira coleção para a marca, em 1974, a designer italiana vem criando belíssimos objetos e jóias que se caracterizam por uma simplicidade orgânica e por uma indiscutível elegância formal – atributos que têm mantido suas peças entre as mais vendidas da companhia ao longo desses quase 40 anos.

Nascida em Firenze em 1940, Elsa desde muito cedo revelou seu espírito criativo, curioso e livre. Filha de um magnata da indústria do petróleo, ainda jovem distanciou-se dos pais conservadores ao passar um tempo na Suíça, lecionando italiano e ski. De volta à Itália, formou-se em design de interiores em Roma e, após romper um tradicional noivado, mudou-se para Milão e começou a trabalhar com o arquiteto Dado Torrigiani. No ano seguinte, 1963, mudou-se para Barcelona e iniciou carreira como modelo, ao mesmo tempo em que mergulhou no fascinante universo dos artistas e arquitetos catalães – em especial no de Gaudí, uma declarada influência. Fascinada pelas formas esculturais, viajou ao Japão e a Hong-Kong para imergir na arte e no simbolismo asiático; por fim, em 1968, emigrou para os Estados Unidos e foi viver em Nova Iorque (segundo ela, o melhor lugar para desfrutar da juventude naqueles anos).

Desfilando para Halston, Sant’ Angelo e De La Renta, Elsa percebeu seu especial interesse pelo design de jóias e acessórios. Com seu jeito de ser um tanto rebelde, o olhar refinado de esteta e a proximidade com o mundo da moda, ela rapidamente entendeu que a linguagem que estava surgindo no design de roupas (caracterizada pela aliança entre conforto, praticidade e sensualidade) deveria permear também os complementos do vestir. Começou então a modelar em cera formas abstratas, simples e orgânicas, inspiradas nas formas da natureza; depois, fundindo-as em prata, fazia delas belíssimas peças, atraentes pelo design clean e inovador e pela primorosa execução. Do primeiro colar ao contrato com a Tiffany foram apenas 5 anos – e no lançamento da primeira coleção para a famosa joalheria, suas peças já estavam todas esgotadas.

Elsa Peretti costuma dizer que sua obra vem de sua vida. E não há dúvidas de que cada uma de suas criações reflete seu jeito de ser e de ver o mundo: sua paixão pela natureza, de cujas formas se apropria para depois reinventá-las; sua incansável curiosidade, que a move em pesquisas acerca dos mais diversos materiais e processos de produção; sua devoção ao artesanato, que faz de cada peça resultado de um árduo e investigativo trabalho manual; e sua eterna rebeldia, que mantém nela viva a chama do questionamento.

Ainda hoje, não há modelo mais perfeita para as peças de Elsa Peretti do que ela mesma. Estilo (que, segundo a própria designer, não condiz com excessos), beleza, simplicidade, competência, elegância e personalidade – para ver, usar, admirar e aprender.

Para saber mais: http://elsaperettidesign.blogspot.com.br

Poeira no vento

por valeriamidena em janeiro 13, 2013

Dorothea Lange :: ‘Dust Storm Near Mills’ :: 1935

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O valor primordial da riqueza material reside no fato de que, por meio dela, podemos garantir o atendimento às necessidades básicas de nossa existência. Quanto maior essa riqueza, maiores o acesso, o nível de conforto e a qualidade que podemos conferir à nossa saúde, alimentação, moradia e educação (e a esta, em suas três dimensões: pessoal, social e cultural). Natural portanto imaginar que o enriquecimento material e o sócio-cultural devessem caminhar juntos.

Num passado não muito remoto, na medida em que ampliava seu poder aquisitivo, a burguesia ascendente buscava reproduzir o modo de vida aristocrático, no qual reconhecia diferencial qualitativo. A aspiração não se restringia a bens materiais: muito mais do que aos objetos, aspirava-se a um certo modo de ser e proceder, percebido como mais belo, elegante e prazeroso. Frequentar óperas e saraus, patrocinar a produção artística ou ter os melhores preceptores para os filhos eram, para essa burguesia, desejos tão fortes quanto vestir rendas francesas ou exibir cristais alemães. Mais do que por possibilitar a aquisição de objetos, o enriquecimento material era almejado por significar acesso a um valorizado universo de conhecimento, cultura e informação.

Em significativa parcela das classes ascendentes na sociedade contemporânea, porém, curiosamente observamos um comportamento bastante diverso desse. Vemos hoje pessoas aumentando suas possibilidades financeiras e, em consequência, os tamanhos de seus automóveis e casas, intensificando os cuidados com saúde e corpo, sofisticando os alimentos e bebidas à mesa, multiplicando as roupas no closet… mas parece não existir, para boa parte dessas pessoas, preocupação alguma com a elevação de seu nível de educação e cultura. O enriquecimento material parece ter um objetivo em si mesmo – obter coisas materialmente mais ricas. Como consequência, vemos uma sociedade cada vez mais embrutecida, mesquinha e arrogante, em que pessoas que sabem de cor os nomes das mais sofisticadas marcas de roupas e de automóveis não sabem citar um só nome significativo nas artes ou na literatura, expressam-se por meio de vocabulário pobre (quando não chulo) e são incapazes de uma atitude gentil.

Educação e cultura são meios para refletir sobre nossa existência, construir, discutir e transmitir valores, e ampliar a consciência acerca de nós mesmos, do outro e do mundo. Elas nos possibilitam aguçar os sentidos e refinar a percepção, tornando-nos capazes de ver e apreciar a beleza – de uma obra, de um pensamento ou de uma atitude; também permitem que sentimentos como gentileza, delicadeza e solidariedade aflorem nas relações, tornando-as amorosas e construtivas; ainda, colocam-nos numa perspectiva histórica, possibilitando o desenvolvimento de um olhar crítico e o fortalecimento de valores universais como verdade, liberdade e igualdade.

Por si, a riqueza material é como poeira no vento – não têm valor algum. Somente por meio da educação e da cultura podemos nos tornar pessoas melhores – capazes, então, de formar uma sociedade melhor, mais agradável e prazerosa para se viver.

Villa-Lobos Superstar

por valeriamidena em maio 6, 2012

PauBrasil :: Villa-Lobos Superstar

 

 

 

 

 

 

 

 

Para meus amigos Marcos e Lucia

Heitor Villa-Lobos, como todo grande criador, começou sua obra sob influência dos grandes mestres do estilo vigente à sua época (como Wagner e Puccini), para depois promover o rompimento com a obra acadêmica e criar uma linguagem inovadora, própria e única.

Incorporando elementos do folclore, de cantos populares e da cultura indígena à música instrumental (solo, de câmara ou sinfônica), Villa-Lobos abraçou as questões mais relevantes do modernismo, dando uma nova dimensão à chamada música nacionalista e colocando a música brasileira no cenário mundial. E em toda sua história, o compositor nunca percorreu um caminho linear – explorou várias possibilidades estilísticas e brincou com as mais inusitadas combinações de instrumentos, sempre de forma livre e em constante evolução.

Composto hoje por alguns dos maiores músicos brasileiros da atualidade (Rodolfo Stroeter, Paulo Bellinati, Nelson Ayres, Ricardo Mosca e Teco Cardoso), o grupo Pau Brasil sempre teve como objetivo pesquisar novas formas para a música instrumental brasileira. Desde sua criação em 1979, a releitura de gêneros e estilos e o cruzamento entre o tradicional e o contemporâneo para a criação de um repertório “visceralmente brasileiro” são parte intrínseca de sua identidade – e, junto com a excelência técnica, a elegância na interpretação e o bom gosto na definição do repertório, fizeram do grupo uma referência na música instrumental brasileira, com reconhecimento internacional.

No início deste ano, o Pau Brasil lançou o excepcional cd ‘Villa-Lobos Superstar’ (em parceria com o quarteto de cordas Ensemble SP e com participação da voz de Renato Braz). Com magníficos arranjos de Ayres e Bellinati, o cd traz uma releitura sensível de obras como as Bachianas Brasileiras nº 4 (Prelúdio e Cantiga) e nº5 (completas), além de várias outras canções, todas em belíssimas e emocionantes interpretações. E a surpreendente inserção de um quarteto de cordas numa formação tradicionalmente jazzística, acrescida dos pontos de luz criados pela voz de Renato Braz, conferem ao cd uma linguagem como a de Villa-Lobos: inovadora e única.

Ao reler Villa-Lobos com tanta competência, o Pau Brasil não apenas demonstra conhecimento acerca da obra do compositor, mas sobretudo a leva adiante, na medida em que, como o próprio Villa-Lobos faria, afirma seu apreço à história, revela seu talento para a inovação e reitera sua vontade de evoluir sempre.

Para saber mais: http://www.grupopaubrasil.com.br

Intolerância

por valeriamidena em abril 21, 2012

'Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages' :: D. W. Griffith :: 1916

‘Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages’ :: D. W. Griffith :: 1916

 

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages’ (‘Intolerância’, em português) foi lançado em 1916 por D. W. Griffith. Com custo de produção sem precedentes à época, o filme, ainda mudo, tem cerca de 4 horas de duração e, por meio da dramatização de um poema de Walt Whitman, interliga quatro episódios da história da humanidade profundamente marcados pela intolerância: a guerra da Babilônia, na Mesopotâmia (cerca de 6 séculos a.C.); a crucificação de Cristo em 33, na Judéia; a noite de São Bartolomeu, na França do século XVI; e o amor de dois jovens durante uma greve de trabalhadores, nos Estados Unidos da era moderna.

A intransigência com relação a opiniões, atitudes, crenças ou modos de ser que difiram dos nossos próprios, e a decorrente repressão, por meio da coação ou da força, das idéias que desaprovamos, têm sido a origem de enorme sofrimento e incontáveis barbáries ao longo da história. A incapacidade de aceitar e de conviver com a diferença é talvez um dos maiores males que podemos causar a nós mesmos.

Poucos dias atrás, o julgamento sobre a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos foi tema de grande repercussão junto à opinião pública brasileira. Em meio a artigos, reportagens e manifestações, uma matéria feita por um jornal de grande circulação chamou minha atenção. Na matéria, duas mulheres eram entrevistadas: a primeira contava do sofrimento que tinha vivido por ter sido obrigada a gestar por 9 meses um feto que sabia anencéfalo – mesmo tendo recorrido a várias instâncias judiciais, não obteve autorização para um aborto a tempo de fazê-lo de maneira segura. Dizia ter passado 9 meses preparando-se para o enterro de um filho que nem chegou a conhecer, e que a experiência fora traumática a ponto de fazê-la desistir de uma nova gravidez.

A segunda entrevista era com uma mulher que também havia tido uma gravidez de anencéfalo, porém, diferentemente da primeira, tinha optado por levar a gravidez até o final, convicta de que aquela era a conduta correta. Mãe já de um menino de 3 anos, tinha enterrado há pouco seu natimorto, e esperava apenas recuperar-se fisicamente para tentar uma nova gravidez.

O que me chamou a atenção nas entrevistas não foi constatar que, frente a uma mesma situação, duas pessoas (de condições sócio-econômicas e culturais muito próximas) tinham posturas tão distintas – mas o fato de que, enquanto a primeira defendia o direito à escolha, a segunda condenava veementemente quem quisesse fazer uma escolha diferente da dela. Pior, defendia que não houvesse a possibilidade da escolha – afinal, sendo sua conduta “obviamente” a correta, por que permitir que alguém tivesse outra, “errada”?

Na origem da negação da legitimidade de diferentes opiniões, atitudes, crenças ou modos de ser estão a vaidade e a arrogância. Julgar que o outro seja menos competente para fazer escolhas e traçar caminhos, acreditar que a nossa verdade deva ser também a verdade do outro mostra o quanto ainda devemos evoluir como seres e como cidadãos. Milhares de anos depois, após tanto conhecimento, tantas descobertas e tecnologias, ainda permitimos que a intolerância escravize a liberdade de escolha a que todos temos direito.

Para saber mais: http://www.youtube.com/watch?v=GF7ho_-1aWo

Inovando nossa história

por valeriamidena em fevereiro 1, 2012

Mosaic :: BR Conspiration :: Fábio Galeazzo :: 2012

Segundo alguns historiadores, o primeiro registro da azulejaria no Brasil data de cerca de 1620, quando peças de cerâmica vidrada vieram de Portugal para ornamentar o Convento de Santo Amaro de Água-Fria, em Olinda. A partir de então – seja pela força com que representava a cultura da metrópole, seja por sua beleza plástica ou por suas características de conforto térmico (bastante adequadas ao nosso clima) –, o azulejo foi sendo cada vez mais incorporado às construções brasileiras.

Presentes inicialmente em painéis nas edificações de uso religioso ou governamental, em poucas décadas as belíssimas peças passaram a ser importadas não apenas de Portugal, mas também da França e da Holanda (países que tinham em sua produção de azulejos importante forma de expressão artística) e começaram a revestir também fachadas de construções urbanas.

Ainda no final do século XIX, o azulejo começou a ser produzido no Brasil – mas foi a partir do início do século XX nossa produção tornou-se regular. E muito embora nesse período alguns arquitetos tenham abandonado o uso desse material (numa rejeição a elementos representativos do período colonial), o movimento moderno brasileiro, preocupado em “casar tradição com modernidade e fazer dos materiais nacionais e tradicionais ponte de ligação entre o colonial e a vanguarda” *, (re)incorporou o azulejo à sua arquitetura. A partir de então, a azulejaria nacional passou a ser uma forte expressão artística de nossa própria cultura, por meio da qual se representavam, junto a formas geométricas, elementos de nossa paisagem, nossa fauna e nossa flora.

Sob essa perspectiva histórica, os azulejos desenhados pelo designer Fábio Galeazzo e lançados agora pela Azulejaria Brasil (Cerâmica Antigua) ganham dimensão ainda maior. Numa coleção batizada de Conspiração BR (20 estampas subdivididas em 4 temas), Galeazzo resgata e relê, com maestria, um dos mais importantes elementos de nossa arquitetura.

Da escolha do formato (15cm X 15 cm, o mais tradicional em nossa produção), passando pela definição dos temas (que vão das imagens presentes na Festa do Divino às estampas tradicionalmente encontradas na chita brasileira) até a montagem da paleta de cores, Galeazzo revela profundo conhecimento,
extrema sensibilidade e uma enorme capacidade de inovação, e obtém resultados plásticos de beleza incontestável.

Aliando domínio técnico e teórico, sensibilidade e talento, Galeazzo demonstra que o design de interiores pode, sim, a um só tempo, ser inovador e contar história,
ser lúdico e propagar cultura – sem deixar de proporcionar beleza aos ambientes, prazer aos olhos e conforto à alma.

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Um não-guia de estilo

por valeriamidena em janeiro 26, 2012

La Parisienne :: Inès de la Fressange et Sophie Gachet :: Ed. Flammarion :: 2010

Desde seu lançamento, em 2010, muito já se falou sobre o livro de Inès de la Fressange e Sophie Gachet. De fato, ele é ótimo: o texto tem humor, graça e vivacidade; as ilustrações (feitas pela própria Inès) trazem os mesmos atributos, com certa delicadeza e uma quase autoironia; as fotos (de autoria de Sophie e Inès) revelam um olhar particular e despretensioso sobre objetos e lugares;
e as informações… ora, quem não gostaria de ter uma agenda com endereços dos melhores e menos óbvios produtos e serviços de Paris?

A um olhar mais atento, porém, o livro mostra ser muito mais do que um ‘guia de estilo’ – designação que não existe na publicação original (simplesmente “La Parisienne”), mas foi agregada ao título em sua tradução para o inglês (“Parisian chic: a style guide by Inès de la Fressange”), e adotada também na versão em português (“A Parisiense: o guia de estilo de Inès de la Fressange”).

A designação ‘guia’ traz implícita a ideia de uma obra com regras e instruções que, seguidas, são capazes de garantir o sucesso de determinado empreendimento ou atitude. Mas a noção de que existe uma fórmula, uma receita para ser ‘chic’ (!) ou para ter ‘estilo’ é diametralmente oposta ao pensamento que percorre o livro – e isso fica claro logo em seu início: “É preciso saber tomar liberdades com as afirmações categóricas… Algumas regras foram feitas para serem quebradas… Você gosta de vestido laranja com sapatos amarelos? Vá em frente, vai chegar um dia que vão querer copiá-la!”

Entendo que o grande mérito do livro esteja, na verdade, em estimular a reflexão e o entendimento sobre si mesmo, e em valorizar a expressão individual – seja no modo de vestir, de morar ou de consumir. Ler algo como: “(A parisiense) não faz o gênero de torrar todo seu salário num must-have. Primeiro porque não tem dinheiro, e depois porque considera que tem tanto talento quanto um estilista: por que pagar caro por uma produção que ela mesma poderia ter imaginado?” é muito mais instrutivo do que saber qual a visão particular de Inès a respeito de como combinar sandálias e vestidos.

Ou ainda: “Por que pensar que é absolutamente necessário pagar milhões para ter arte em casa? Enquadre os desenhos preferidos dos seus filhos… e para qualquer pedaço de papel a que você queira dar importância, os quadros de acrílico magnéticos transformarão até um recado rabiscado num guardanapo…”
É relevante saber de onde são os quadros de acrílico magnéticos? Não, relevante é a noção de que cada um decide aquilo que quer emoldurar – aquilo que, para si, tem valor.

Ter estilo é conhecer a si mesmo e ter clareza de suas preferências; saber o que lhe proporciona prazer, o que lhe agrada, o que coexiste em harmonia com seu jeito de se mover, de pensar, de agir, de viver. E fazer de cada escolha, portanto, uma expressão da própria individualidade. Ter estilo é ser consciente de ser único – e desfrutar dessa condição com alegria e prazer.

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Forma e pensamento

por valeriamidena em setembro 26, 2011

Mira Schendel :: untitled, from the series Graphic Objects :: 1967

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dentre os artistas europeus que imigraram para o Brasil durante ou logo após a 2ª Guerra Mundial, e que tanto contribuíram para o enriquecimento da linguagem das nossas artes plásticas, Mira Schendel é sem dúvida o nome de maior importância.

Nascida em Zurique, viveu também em Berlim, Milão, Sarajevo, Zagreb e em Roma, até imigrar para o Brasil em 1949, instalando-se em Porto Alegre. Não há registros de qualquer produção européia sua; deduz-se que, ao imigrar, ela tenha interrompido sua formação universitária em filosofia na Itália, e tenha iniciado sua produção artística apenas aqui, como autodidata. Como explicou Geraldo de Souza Dias em 2001, no prefácio do catálogo da exposição da artista no Jeu de Paume, Paris, “sua infraestrutura intelectual, alimentada por inquietudes filosóficas e religiosas, encontrou aqui um ambiente cultural muito mais propício ao estímulo da criatividade artística do que ao rigor científico do pensamento filosófico.”

Os escritos de Schendel são fundamentais para o entendimento da singularidade de sua obra. Sem se ocupar da história da arte, ela se referenciava na psicologia, na ciência, no conhecimento, na teologia e na filosofia para produzir seus trabalhos, sempre balisados por seus próprios pensamentos e princípios estéticos. Predominante na filosofia ocidental pós Platão, a ideia da cisão inerente à natureza humana – corpo vs. alma, matéria vs. espírito – é central em sua obra, muitas vezes permeada por indagações existenciais ou expressões de origem religiosa.

Das naturezas mortas do início, Mira Schendel rapidamente evoluiu para o abstracionismo e em seguida para os escritos – caligrafias de imensa beleza por meio das quais registrava seus pensamentos e inquietudes. Sem abandonar a palavra como expressão do pensamento, Mira foi depois incorporando a esses escritos as letras autocolantes (Letraset), apropriando-se assim dessas letras não apenas como veículos do significado, mas como elementos gráficos de inúmeras possibilidades plásticas. As experimentações com transparências, que permitem que o espectador contemple as 2 faces das monotipias, são exemplos máximos da profundidade e da sensibilidade presentes nessa sua investigação.

Não há como não reconhecer e não se apaixonar pelos trabalhos de Mira Schendel. Ninguém transmutou palavra em arte com tanta elegância, delicadeza
e personalidade como ela. Mesmo artistas excepcionais como Léon Ferrari
(que dividiu com Mira a grande retrospectiva ‘Tangled Alphabets’ no MoMA em 2009) ou Marcel Broodthaers, todos contemporâneos, não conseguiram unir,
com tal beleza, forma e pensamento (corpo e alma, matéria e espírito),
e proporcionar assim, por meio da contemplação de uma obra, reflexões profundas ao mesmo tempo em que prazeres tão infinitos.

Para saber mais:
‘Mira Schendel’, catálogo da exposição homônima, Galerie Nationale du Jeu de Paume, Paris, 2001
‘Tangled Alphabets – Léon Ferrari and Mira Schendel’, Luis Péres-Oramas, MoMA & CosacNaif, 2009

Oubliez tous vos clichés

por valeriamidena em agosto 29, 2011

ZAZ

ZAZ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma voz doce e rouca que canta com entusiasmo e simplicidade de menina, mas atitude e competência de gente grande.

O canto inovador de Isabelle Geoffroy – ou Zaz, como é conhecida – é uma tradução musical do mundo contemporâneo, onde as fronteiras entre oriente e ocidente, tradição e inovação, acústico e eletrônico já não se distinguem – e nem fazem mais sentido. Com simplicidade, elegância e uma identidade muito própria, Zaz traz em sua música as mais diversas influências: do jazz ao blues, da tradicional música francesa aos cantos mouriscos, dos sons africanos ao ritmo latino. O resultado é arrebatador: uma música inovadora, carregada de personalidade, emoção e alegria.

Seu primeiro cd, lançado no início de 2010, ficou por meses entre os mais vendidos na Europa, e colocou Zaz entre as grandes revelações da música francesa contemporânea. Sua canção de mais sucesso, ‘Je veux‘ (‘Eu quero’), traz o arroubo e o frescor da juventude, em sua ode à liberdade e sua crítica aos padrões estabelecidos na sociedade de consumo. Romantismos e contradições à parte, num cenário musical permeado por lugares-comuns, ouvir uma voz poderosa e bem humorada como a de Zaz cantando ‘oubliez tous vos clichés‘ é um delicioso e divertido prazer.

O mesmo cd traz um belíssimo cover de ‘Dans ma rue‘ (‘Na minha rua’), originalmente gravada pela grande voz rouca da música francesa, Edith Piaf. E se na voz de Piaf a canção era lindamente noturna e melancólica, na voz de Zaz adquire outra forma beleza – agora, solar e vibrante.

C’est ça: oubliez les cliches – et vivre la différence.

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A chave

por valeriamidena em agosto 3, 2011

Kitagawa Utamaro :: Lovers in an upstairs room :: 1788

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27 de fevereiro
Como eu imaginava.
 Minha esposa mantém um diário. Até hoje tomei a precaução de não escrever isso neste caderno, mas na verdade minha atenção foi vagamente despertada alguns dias atrás.


Não sou tão vil a ponto de ler o diário de minha própria esposa sem sua permissão. No entanto, embuído de maus sentimentos, tentei retirar com destreza a fita adesiva que o lacrava, de forma a não deixar marcas. Queria assim demonstrar a minha mulher que uma fita apenas seria inútil.

7 de março
… Foi então que encontrei a chave caída no mesmo lugar. Pensei que devia haver alguma razão e, abrindo a gaveta, retirei o diário do meu esposo. Para minha surpresa, estava selado com uma fita adesiva da mesma forma como eu tinha feito. Meu marido quererá por certo dizer-me “Experimente abri-lo”?

Estava curiosa para tentar puxar a fita sem deixar marcas. E foi por pura curiosidade que tentei fazê-lo.”

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Ouvindo a própria voz

por valeriamidena em julho 29, 2011

Bobby McFerrin

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“É isso que você quer fazer? É desse jeito que você imagina explorar a música?” Bobby McFerrin conta que, ainda jovem, impactado e encantado ao ouvir o trabalho que Keith Jarrett fazia ao piano, eram essas as perguntas que vinham à sua mente. A vulnerabilidade de uma pessoa sozinha num palco sempre o tinha fascinado, e ele se perguntava se seria capaz de, como Jarrett, captar a essência de uma música, de suas harmonias, e de captar a sua própria essência – para então, ao cantar, fazê-lo como Jarrett fazia ao piano: com sua verdade e à sua maneira, pessoal e única.

Foram quase três anos reclusos, sozinho, cantando, gravando, ouvindo e (re)conhecendo sua própria voz. Durante os dois primeiros, Bobby sequer ouvia outros cantores – temia ser influenciado por algum outro jeito de cantar, e acreditava que isso o distanciaria dele mesmo. Precisava descobrir-se, saber e ter propriedade sobre o som que emanava, conhecer e explorar as possibilidades da própria voz.

Também a capacidade de improvisação era para ele um desafio a vencer. Queria descobrir o prazer de se manter em movimento sem saber exatamente aonde chegar… deixar-se ir como uma criança, sem se pautar pelo controle dos conhecimentos teóricos. E então passou outros tantos anos exercitando seu próprio jeito de improvisar – nas palavras dele, exercitando a superação do medo de improvisar, do medo de assumir riscos, de parecer tolo e de não ter ideias suficientes.

Hoje, mais de 30 anos depois, Bobby McFerrin é (re)conhecido em todo o mundo como um dos maiores talentos da música contemporânea. Além da genialidade musical, em cada nota que sua voz emite, e em cada gesto seu, transparecem também uma naturalidade e uma elegância raríssimas, decorrentes da perfeita harmonia existente entre o que faz, o que aparenta e quem verdadeiramente é.

A verdade de Bobby McFerrin pode ser também uma alegoria para cada um de nós. Afinal, ser e saber-se único, ouvir a própria voz, expressar sua essência, não temer o desconhecido e experimentar a alegria de se manter em movimento… nada é mais belo, elegante e prazeroso. E é isso o que realmente importa.

Para saber mais: http://bobbymcferrin.com/
Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=ktotbE4rN2g (entrevista)