Sobre este blog

O apreço pela estética impôs-se em minha vida desde muito cedo. Na observação dos pequenos itens que compunham meu universo cotidiano, a cada mínima escolha, nunca me foi possível prescindir da estética como valor a admirar e perseguir.

Não obstante a associação quase imediata entre estética e atributos físicos e formais, a percepção de que o belo advém não apenas de objetos mas também de ações e atitudes fez surgir em mim, ao longo do tempo, a necessidade de ampliar meus conhecimentos acerca dessa questão. O que, afinal, nos faz entender ou definir algo como belo, agradável ou elegante? Como surgem e se estabelecem tais conceitos? E essa capacidade de percepção, seria inata ou social e culturalmente construída? E por que, para cada pessoa, o apreço pela estética adquire diferentes abrangências e valores?

Em 2010, ao me deparar com o livro “O gosto”*, de Montesquieu – publicação de um fragmento inacabado encontrado entre seus papéis – percebi enfim o caráter universal e atemporal da questão que eu começava a investigar.

Embora, de acordo com Teixeira Coelho no posfácio dessa mesma obra, “o gosto hoje seja uma ideia e uma palavra quase soberbamente banidas do discurso erudito e toleradas apenas na esfera popular ou informal”, seu conceito equivalia, até meados do século XVIII, ao que hoje a filosofia entende como estética – palavra, aliás, surgida naquele mesmo momento histórico.

Logo na introdução, Montesquieu expõe os motivos que o levaram a tais escritos –
“Em nosso atual modo de ser, a alma desfruta três espécies de prazeres: aquele que extrai do fundo da própria existência, outros que resultam de sua união com o corpo, e outros, enfim, baseados nas inclinações e preconceitos que certas instituições, certos usos, certos hábitos lhe impuseram. … São esses diferentes prazeres da alma que formam os objetos do gosto, tais como o belo, o bom, o agradável…” – para, mais adiante, declarar: “As fontes do belo, do bom, do agradável, etc., estão em nós mesmos; buscar suas razões é buscar as causas dos prazeres da alma.”

As obras do homem, bem como as obras da natureza, e as diversas maneiras de nos relacionarmos com essas obras e entre nós mesmos, são fontes de prazer para nossa alma. De todas as coisas ao nosso redor, podemos extrair emoções, paixões e prazeres… e observar e discutir esse mecanismo só contribui para a ampliação desses prazeres que cada diferente alma pode experimentar.

“Examinemos portanto essa alma, estudemo-la em suas ações e paixões, busquemo-la em seus prazeres: é aí que ela mais se revela. A poesia, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, a dança, os diferentes tipos de jogos, as obras da natureza e da arte, enfim, podem dar-lhe prazer: vejamos por que, como e quando isso acontece, entendamos nossos sentimentos: isso poderá contribuir para a formação do gosto, que nada mais é senão a vantagem de descobrir com sutileza e presteza a medida do prazer que cada coisa deve dar às pessoas.”

Sobre isso é este blog. Sobre a estética, o gosto, sobre todas as coisas e os diferentes prazeres que elas nos dão à alma.


* ‘Le goût’, Charles de Secondar/Baron de Montesquieu, tradução de Teixeira Coelho, Ed. Iluminuras, 2009