Dos lugares que nos habitam

by valeriamidena on fevereiro 12, 2014

Turner :: Venice: San Giorgio Maggiore – Early Morning :: 1819

Da ‘Odisséia’ de Homero às ‘Cidades Invisíveis’ de Calvino, são incontáveis os belíssimos encontros ocorridos, ao longo de nossa História, entre literatura e viagem. Diferentemente dos guias, que têm por objetivo fornecer informações de ordem prática sobre uma determinada cidade ou um lugar, a literatura de viagem, por meio da narrativa de experiências, descobertas e reflexões, coloca a aventura pessoal numa dimensão universal, capaz de instigar a imaginação, despertar sensações e inspirar desejos.

Assim como pessoas, lugares não têm vida senão por meio das relações que neles e por eles se contróem. Narrativas épicas, relatos de exílios, romances ficcionais e até mesmo alguns diários de viagem jogam luz sobre essas relações e têm papel fundamental na ampliação de nossa capacidade de perceber, sentir e imaginar o mundo que habitamos. Seria o mesmo nosso olhar sobre a Sícilia sem a leitura do texto de Lampedusa? E nossa percepção de Paris, sem as memórias de Hemingway? Temos consciência da infinita diversidade de lugares, paisagens, pessoas e culturas que habitam nosso mundo, mas são as experiências frente a essa diversidade que falam à nossa alma, e não seu entendimento racional.

Cada um de nós traz dentro de si um profundo arcabouço de imagens, sensações, palavras ou aromas que relacionamos a lugares, vivenciados ou sonhados, dos mais próximos aos mais distantes. Mistura de memórias, desejos e impressões, é um acervo que, de maneira não linear, vamos montando ao longo da vida; dentro de nós, permanece em silêncio, adormecido – mas a menor referência a qualquer dos lugares que nos habitam faz esse universo despertar.

Nesse sentido, a experiência de uma viagem tem início muito antes da efetiva partida. A escolha por um destino, a decisão sobre o meio de transporte, a análise de possibilidades e montagem da agenda, a inclusão (ou não) de uma companhia… Cada passo dado desde o primeiro instante de elaboração de uma viagem é resultado não apenas de um repertório cultural, mas principalmente desse universo onírico e sensorial que nos habita. Quanto mais amplo for esse universo, então, mais bela poderemos tornar a experiência vivenciada – e maior será o prazer que poderemos conferir à nossa alma.

3 comments

Estou vivendo este exato momento.
Estou a 1 mês de minha próxima viagem e já estou “viajando” há 2 meses. É um estado de espírito que me vicia.

by Beia Carvalho on %d 12UTC %B 12UTC %Y at %H:%M 07Wed, 12 Feb 2014 19:39:29 +000029.. Responder #

Gostei muito do texto, ainda mais agora em que estou em vias de me transformar novamente, erigir novas metas, objetivos de vida. Dentre estes está uma boa viagem a lugares pelos quais nunca passei perto, a não ser, claro, como aponta a autora, nas fantasias que a gente constrói ao ler um livro, uma revista de viagem, um programa de TV ou ver um bom filme.

by Wagner A. Teixeira on %d 03UTC %B 03UTC %Y at %H:%M 02Thu, 03 Nov 2016 14:36:23 +000023.. Responder #

Caro Wagner, com desculpas pela demora desta resposta, gostaria de agradecer por sua visita ao blog e por seu comentário, muito gentil. Por razões pessoais, precisei temporariamente suspender a publicação de textos aqui no SobreTodasAsCoisas, mas a partir de agora (final de março) o blog volta com força total! Espero continuar contando com você como leitor, tanto aqui quanto na página que o SobreTodasAsCoisas tem no FaceBook (https://www.facebook.com/SobreTodasAsCoisas.ValeriaMidena/). Obrigada novamente – e que você seja muito feliz em todas suas novas viagens!

by valeriamidena on %d 18UTC %B 18UTC %Y at %H:%M 04Sat, 18 Mar 2017 16:51:47 +000047.. Responder #

Leave your comment

Required.

Required. Not published.

If you have one.